Saturno em Áries: este momento, arisco
- Mariana Campos
- há 1 dia
- 3 min de leitura
Há algo de sempre inaugural quando um planeta lento muda de signo. Como se a paisagem celeste, tão habituada a seus ritmos de longa duração, sofresse um leve deslocamento de eixo e, de repente, um outro tipo de tempo começasse a escorrer entre as horas. Saturno ingressa em Áries.
As bordas de Saturno
Entre os sete errantes da tradição, Saturno ocupa a última esfera visível, o ponto extremo do olhar que se ergue da Terra e encontra, no limite do alcance, um astro de passo demorado. O céu antigo organizou suas contas a partir dessa distância. A Lua marcava a sucessão breve dos dias, o Sol a respiração anual das estações, e Saturno, lá na borda, sustentava a duração mais extensa acessível à experiência humana. Saturno traduz tempo em experiência, experiência em memória, e depois, ao fim de um ciclo, leva tudo consigo para o fundo da alma, finda um ciclo para dar boas-vindas a novos tempos. Frio e seco, afinado aos terrenos de escassez e preservação, Saturno educa pelo furo da pedra, por intervalo e por espera. A dureza de sua presença marca passagens, delimita fases, instala pausas que adquirem espessura de acontecimento.
Pensar Saturno é pensar o ciclo que não se deixa atravessar sem transformação e, sobretudo, sem rito. Há em seu movimento algo de cerimonial: momentos que se fecham, outros que se abrem, a vida convocada a reconhecer que certos limiares não se cruzam sem gesto. Sua posição extrema entre as esferas o converteu em guardião do limiar. Para habitar a vida atravessa-se Saturno; para deixar a vida atravessa-se Saturno outra vez. Assim, o tempo saturnino envolve nascimento e término dentro do mesmo arco, como se cada instante trouxesse consigo a sombra de sua própria finitude.
Que pressa é essa?
É nesse contexto que Saturno atravessa o limiar de Áries, território de uma cadência marcial, muito diferente da sua. Áries abre o zodíaco pelo ímpeto do começo, pelo gesto que rompe a inércia e inaugura direção. Fogo cardinal, impulso que irrompe sem garantias e sem explicações, Áries bate. A tradição associou a esse signo a emergência das ações, a decisão que antecede o cálculo, a coragem ingênua e, por isso mesmo, potente. Em Áries, a vida é chamada, aos berros. A cena se arma depressa. A chama se ergue e, ao fazê-lo, produz claridade e risco ao mesmo tempo. O corpo se inclina para frente, como quem atravessa a soleira de uma porta ainda desconhecida. O tempo aqui parece curto, mesmo quando não é. Ele estala. Ele corre à frente do pensamento.

Quando Saturno pisa esse solo ígneo, o tempo arde. Pense em Libra, signo oposto a Áries: lugar de exaltação saturnina. Ali, a balança, o peso equilibrado, a repesagem constante compõem um ambiente em que Saturno encontra correspondência direta. Medir, avaliar, distribuir, sustentar proporção ao longo do tempo. Capricórnio e Aquário, signos que Saturno rege, permanecem como memória de sua casa: um constrói pela pedra e pela escalada paciente, o outro sustenta sistemas e ideias que atravessam gerações. Áries, por sua vez, figura sua queda. Saturno continua a operar sua lógica de duração e estrutura enquanto o campo ao redor pulsa em outra métrica. O fogo cardinal solicita rapidez, inauguração, tentativa; o tempo saturnino pede consolidação, permanência, mas não sei, não sei no que isso vai dar. Saturno em queda parece falar pelas letras de Cecília Meireles:
Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei.
Não sei se fico ou passo.
A contagem cronológica segue seu curso. Ainda assim, a experiência temporal não se esgota na linha que avança. O instante rasga a continuidade. O momento oportuno se impõe como acontecimento. Os gregos o chamaram kairós, palavra que guarda a sensação de uma abertura breve, uma ocasião, quase um acaso, que se oferece e se esvai sem aviso. Saturno em Áries parece caminhar nessa dobra, onde a duração encontra o estalo do momento. O tempo longo respira dentro do gesto breve. A contagem prossegue enquanto o instante se oferece como lâmina. Um poema de Orides Fontela:
Este momento: arisco
alimenta-me mas
foge
e inaugura o aberto
do tempo.
Saturno em Áries, o tempo caminha sobre brasas. Observar a casa astrológica de Áries sem seu mapa natal, e os demais planetas que possam estar nesse signo, ajudará a compreender em que âmbitos da vida essa pressa e esse descompasso irão exigir, de você, novos passos dessa dança-tempo.
Efemérides de Saturno (2025-2028)
Ingresso em Áries: 25 de maio de 2025
Saturno Retrógrado em Áries: 13 de julho de 2025 a 1º de setembro de 2025
Retrógrado, ingresso em Peixes: 1º de setembro de 2025
Ingresso definitivo em Áries: 13 de fevereiro de 2026
Ingresso em Touro: 12 de abril de 2028



Comentários